Complicações otológicas em crianças
fissuradas
[
Autor(es):
Ariovaldo Armando da Silva*
Oscar Antonio Queiroz Maudonnet**
Palavras-chave:
Keywords: cleft palate; middle ear
Resumo: Os autores relatam as
principais causas das otites freqüentes em fissurados e fazem considerações
sobre o uso de tubos de ventilação.
Introdução
As deformidades palatinas
freqüentemente são acompanhadas de manifestações clínicas associadas e
distantes da cavidade oral. As crianças fissurados apresentam distúrbios no
desenvolvimento da fala, alterações da deglutição, doenças do ouvido médio e
dificuldades adaptativas-sociais. É estimada em 1:500 e 1:750(1) a incidência
de fissura palatina em nascidos vivos, tanto em sua forma isolada como
associada a outras malformações. Em crianças com fissura palatina, a incidência
de otite média varia entre 50% e 90% dos casos, conforme o estudo
realizado(2,3,4,5,6), o que é 30 vezes mais freqüente que nas populações
normais(7) e de fissurados labiais unicamente(1,5). Geralmente as otites são
decorrentes de alterações tubárias e da mucosa nasal. Mesmo em populações
assintomáticas é de 37% a incidência silenciosa de otite(s), demonstrada por
exames timpanométricos(6). Existe déficit auditivo conjuntivo em 90% das
crianças fissuradas com otite média(9,10), sendo geralmente de intensidade leve
ou moderada(7). Observa-se em pouco mais da metade dos casos, escassa
pneumatização bilateral das mastóides(7). As otites freqüentes na infância
podem provocar lesões neurossensoriais(13,14), assim também outras seqüelas
otológicas como retração e perfuração do tímpano(11 ). A incidência de otites
diminui após a correção cirúrgica do palato e também com o avançar da idade do
paciente(11). Este déficit auditivo contribui para comprometer o
desenvolvimento da fala na criança fissurada(12).
As malformações crânio-faciais e
as fissuras palatinas têm origem congênita de base genética (síndrome
cromossômicas) ou adquiridas (por drogas, infecções na gravidez, etc...). As
malformações faciais que atingem o primeiro e - segundo arcos branquiais são
freqüentemente acompanhadas de lesões no ouvido médio, especialmente com
alterações da cadeia ossicular e atresia de condutos e, conseqüente, hipoacusia
condutiva. Ocasionalmente ocorrem malformações do ouvido interno, por comprometimento
do folheto ectodérmico, resultando em surdez neurossensorial(13,14). Poucas
malformações têm surdez mista e de caráter progressivo(14), como é a displasia
crânio-metafiseal. Genericamente, a surdez está presente em mais de 50% dos
pacientes com malformações faciais. Nos estados associados de fissura palatina
e malformações faciais a incidência de surdez aumenta n razão direta do número
de outras malformações presentes(13,14). Ressalta-se que nos fissurados, em s
maioria, as alterações anatômicas buco-naso-faríngeas são as responsáveis pelas
otites médias e conseqüentemente hipoacusia condutiva.
Linguagem e Audição - Aspectos gerais e
no fissurado
A aquisição normal da linguagem
depende de um sistema sensorial auditivo normal, do sistema perceptivo -
integrador central amadurecido estruturado (áreas corticais e sub- corticais
cerebrais) e de um sistema expressivo motor perfeito. É um pr cesso dependente
de aprendizado constante, do estado emociona equilibrado, estimulante e da
realimentação própria do sistema (15). sistema auditivo compreende o ouvi do, o
nervo auditivo, em suas porções e conexões tronculares, sub- corticais,
corticais e em especial lobo temporal.
O sistema auditivo atua como
exteroceptor sonoro e na realimentação acústica das emissões orais,
desenvolvendo e aperfeiçoando a fala. Interessa-nos discutir a porção
periférica. O ouvido possui três porções (externa, média e interna)
anatomicamente situadas em escavações do osso temporal (Fig. 1) e revestidas
por tecidos específicos. O ouvido externo tem função de condução do som do
exterior para a membrana timpânica. O ouvido médio amplifica e conduz o som em
direção ao ouvido interno, utilizando, para isto, a cadeia ossicular. O ouvido
médio possui comunicação com a rinofaringe através da tuba de Eustáquio e tem
por função igualar a pressão entre o ouvido médio e o ambiente.
Fisiologicamente a mucosa da caixa timpânica absorve 1 ml de gás por dia,
determinando queda da pressão do ar interno, que se não reposto pela tuba,
acarretará retração da membrana timpânica até sua total aderência ao fundo da
cavidade(1). A obstrução tubária prolongada provoca secreção serosa no ouvido
médio, fenômeno que é observado experimentalmente após 25 horas de ligação
cirúrgica da tuba, sendo observada após 60 horas uma metaplasia da mucosa da
caixa timpânica(16). A timpanometria é o exame utilizado para estudar a função
tubária e consiste em medir a mobilidade da membrana timpânica e da cadeia
ossicular, revelando alteração da impedância local (resistência). às pressões
externas (positivas ou negativas), quando existir efusão na caixa e/ou retração
timpânica ). No ouvido interno está o região neurossensorial, responsável pela
transdução da mensagem sonora, fenômeno no qual a energia acústica mecânica é
transformada em estímulo neuroelétrico (Fig. 1).
As deficiências auditivas são
divididas em três grupos:
1. Condutivas - quando existe
comprometimento do ouvido externo e/ou médio;
2. Neurossensoriais - quando
existe comprometimento das funções do ouvido interno;
3. Mistas - associação de perda
condutiva e neurossensorial.
O exame audiométrico subjetivo
tonal permite identificar os diferentes tipo de surdez. O teste audiométríco é
aplicado através da estimulação sonora sobre o conduto auditivo externo (via
aérea) e sobre a região mastóidea (via 6ssea) (Fig. 2). No caso das patologias
Condutivas a transmissão por via aérea está prejudicada, enquanto a transmissão
por via 6ssea mantém-se inalterada. Nas lesões neurossensoriais, tanto a via
aérea como a via óssea estão igualmente prejudicadas. Os limiares das
intensidades sonoras percebidas são determinados em diferentes freqüências e
registrados em gráfico adequado.
A classificação das intensidades
das perdas auditivas é suas conseqüências sobre a recepção dos sons da fala são
analisadas no esquema n°1.
Nos casos das otites em
fissurados, a surdez geralmente é condutiva, de intensidade leve a moderada e
devido à disfunção tubária. Está caracterizada na fala dos pacientes, por
substituição de consoantes (especialmente as surdas-sonoras), alterações da
emissão de vogais, nasalidade e sigmatismo(7). A linguagem como processo mais
amplo, dependente do pensamento, não é alterada por este déficit auditivo(17).
Fig. 1
Fig. 2 - Transmissão do som por
via óssea (V.O.) e via aérea (V.A.)
Fisiopatologenia
As complicações do ouvido médio
dependem de três fatores, todos envolvendo basicamente a função tubária, e são
eles:
A) Fator mecânico - compreende os
itens:
1) existe desequilíbrio muscular
faríngeo devido à fenda. A falta de apoio mediano inferior do periestafilino
interno e, em menor grau, do periestafilino externo, compromete a função
muscular tubária08).
2) existem perturbações
funcionais tubárias decorrentes das manobras cirúrgicas no periestafilino
externo(18);
3) durante o ato cirúrgico a
não-preservação do humulus pterigóideo (estrutura que serve de apoio à
musculatura tubária), provoca disfunção tubária(17); outros autores(5),
entretanto, não observaram este aspecto;
4) existem distúrbios
relacionados com a pressão negativa que é criada no cavum pelos movimentos de
deglutição e respiração, que, transmitidos diretamente pela fissura à tuba e
ao. ouvido médio, provocam colapsos e insufléncia de aeração na caixa
timpânica(5);
5) observa-se diminuta inclinação
tubária no recém-nato, favorecendo a entrada de líquidos do cavum à caixa
timpânica. Somente aos seis anos de idade, a tuba adquire a inclinação normal
observada no adulto(5.20);
6) existe pequena capacidade no
ouvido médio em crianças (0,3 cc de água) para a acomodação de líquidos. Aos
seis anos a caixa timpânica atinge o volume de 0,6 a 0,8 cc de água, comum
ao adulto(19,20).
B) Fator inflamatório -
compreende os itens:
1) a hipertrofia e a infecção
adenoideana, impedem a aeração e o fluxo normal das secreções do cavum,
contaminando a tuba e o ouvido médio(5);
2) as alterações da mucosa nasal
e da função ciliar, ocasionadas pelo refluxo buco-nasal, levam ao aparecimento
de hipertrofia e granulação inflamatória local, ocasionando edema peritubário(5);
3) a reação vasomotora do cavum,
devido ao contato com ar frio e seco aspirado pela boca, evolui com edema
tubário(s);
4) a alteração da viscosidade
nasal e tubária, com colapsos freqüentes da tuba, compromete a aeração da caixa
timpânica.
C) Fator imunitário - vasomotor:
As rinites alérgicas, as vasomotoras e as deficiências imunitárias, evoluem com
edema e hiperplasia da mucosa nasal e tubária, favorecendo o aparecimento das
otites(18). Supõe-se que as alterações morfológicas do fissurado modificam as
taxas de imunoglobulinas específicas da região, ocasionando queda da
resistência às infecções(18).
Quadro clínico das otites médias
O quadro agudo das otites em
crianças, caracteriza-se por otalgia febre, às vezes diarréia, queda do estado
geral e meningismo. Pelo exame, observamos o tímpano abaulado, hiperemiado, com
exsudato purulento ou micro-hemorrágico(18). O
processo crônico, originado de
otite aguda não resolvida ou de disfunção tubária persistente, caracteriza-se
por apresentar tímpanos róseo-alaranjados, espessados, vascularizado abaulados
ou retraídos. Este quadro crônico evolui em surtos de reagudização, quando
volta a apresentar otalgia e febre(21). Ocasionalmente ocorre perfuração
espontânea da membrana timpânica, devido ao aumento da pressão local pelo
líquido acumulado, com aparecimento da otorréia purulenta. As perfurações
timpânicas no quadrante superior podem complicar com o desenvolvi mento de
colesteatoma, que é massa epitelial crescendo para dentro da caixa timpânica,
erodindo ossículo: e mastóide. Os quadros agudos ( crônicos, mal resolvidos,
podendo evoluir para meningite, abscesso cerebral e trombose vascular cerebral
Freqüentemente, o caráter espoliativo de infecções repetidas na infância pode
ocasionar déficit do desenvolvimento pôndero-estrutural( 1,3,5,17,21).
Tratamento
A correção da fissura palatina
reduz sensivelmente, em até 80% do: casos, o aparecimento de otites(e).
A curetagem exclusivamente na
região peritubária da adenóide hipertrofiada favorece a aeração, reduzindo o
refluxo de secreção purulenta do cavum para a caixa timpânica(18).
A correção clinica dos quadros de
rinites alérgica e vasomotora (cor utilização de vacinas, corticóides
cromoglicato dissódico, anti-histaminicos, esportes, etc.) permite melhorar a
função nasal e tubária(5).
A correção das otites médias
baseia-se clinicamente na utilização de medicamentos como antibióticos,
fluidificantes e antinflamatórios. Os casos crônicos são resolvidos
cirurgicamente pela inserção de drenos transtimpânicos (1 ,18,22). Como os
quadros de otite têm aparecimento precoce, muitas vezes ainda no período
neo-natal, e são persistentes, muito se discute sobre a melhor época para a
colocação do dreno. Alguns autores(5,8) propõem inserção precoce do dreno já
aos três meses de idade e, em caso de expulsão, tomam a reinseri-lo quantas
vezes for necessário. Justificam este comportamento em função das complicações
otológicas tardias que possam ocorrer, como a otite adesiva, o tolesteatoma e a
timpanosclerose. Outros autores (20.23) acreditam que a inserção do dreno deve
ocorrer, se necessário, somente no momento da correção do palato. Argumentam
que a inserção precoce favorece o aparecimento de otorréia persistente,
superinfecção e perfuração residual. Outros(18), consideram que a retração
timpânica não é tão significativa e pode ser controlada unicamente por
medicamentos, sendo resolvida espontaneamente aos seis anos de idade, não
indicando cirurgia.
Entretanto, é conveniente
analisar cada paciente particularmente, não esquecendo que é mais fácil
ventilar um ouvido pela drenagem do que corrigir eventual otite adesiva ou
colesteatoma secundário.
As complicações otológicas, como
perfurações e colesteatomas, implicam em correção cirúrgica apropriada e, às
vezes, urgente.
Exercícios fonoterápicos de
deglutição, respiração e massagens no véu palatino podem ajudar a reconduzir a
tuba de Eustáquio à função normal, reduzindo as recorrências de otites
médias(s).
As malformações do ouvido externo
de origem genética, como atresia ou agenesia, requerem cirurgia plástica
corretiva para alargamento do conduto, na idade apropriada. As malformações da
cadeia ossicular podem ser amenizadas com a implantação de enxertos totais do
ouvido médio (membrana timpânica e ossículos de um doador).
A deficiência auditiva
neurossensorial ou condutiva, de intensidade não compatível com a comunicação
normal, pode ser beneficiada com o uso de aparelho de amplificação sonora
individual. Neste caso, achamos conveniente apoio fonoaudiológico específico.
Devido à complexidade dos quadros
otológicos em fissurados, como também a gravidade do prejuízo funcional que
podem representar na comunicação humana, achamos conveniente o acompanhamento
por médico otologista.
Summary
The authors related the principals causes of
the otological complications en cleft palatal and, the use of ventilation's
tubes in the therapy.
Agradecimentos
Dra. Ana Maria F. Simões Bianchi
Revisão Bibliográfica
Dr. Dallas Irany De Conti
Desenho
Fundação Affonso Ferreira
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* Médico ORL e Foniatra do
Instituto Penido Burnier
** Médico ORL do Instituto Penido
Burnier
Endereço para correspondência:
Av. Andrade Neves, 511- CEP 13020 -Campinas -SP - Fone: (0192) 2-1027
Indexações: MEDLINE, Exerpta
Medica, Lilacs (Index Medicus Latinoamericano), SciELO (Scientific Electronic
Library Online)
Classificação CAPES: Qualis
Nacional A, Qualis Internacional C
Um comentário:
Gostaria de agradecer as informações tenho um filho que está com mau funcionamento da tuba auditiva, passei pelo medico mas não fui bem orientada, não esclareceu minhas duvidas. Vou levar em outro.Comecei a pesquizar entrei no seu blog gostei muito vai me ajudar a conversar com outro medico. Que Deus abençoe vc e sua familia. Cris
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